segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O Louco






Perguntais-me como me tornei louco. 

Aconteceu assim:

Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, 

despertei de um sono profundo e 

notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas 

– as sete máscaras que eu havia confeccionado 

e usado em sete vidas – 

e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando: 

“Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”


Homens e mulheres riram de mim 

e alguns correram para casa, 

com medo de mim. 


E quando cheguei à praça do mercado, 

um garoto trepado no telhado de uma casa gritou: 

“É um louco!” 


Olhei para cima, para vê-lo. 

O sol beijou pela primeira vez minha face nua.

Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, 

e minha alma inflamou-se de amor pelo sol, 

e não desejei mais minhas máscaras. 

E, como num transe, 

gritei: 

“Benditos, 

benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”

Assim me tornei louco. 

E encontrei tanto liberdade 


como segurança em minha loucura: 


a liberdade da solidão e 

a segurança de não ser compreendido, 



pois aquele que nos compreende 

escraviza alguma coisa em nós.


Gibran Khalil Gibran





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