sábado, 1 de outubro de 2016

O Profeta


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O PROFETA


AL-MUSTAFA, o Eleito e o Bem-Amado,

que era uma aurora em seu próprio dia, 

esperava havia doze anos, na cidade de Orphalese, 

o regresso de seu navio 

que o levaria de volta à ilha onde nascera.



E no ano décimo segundo, ao sétimo dia de Ailul, o mês da colheita, 

galgou o monte fora da cidade e olhou para o mar; 

e deparou com o navio chegando com a névoa.

Então, as portas de seu coração abriram-se, 

e sua alegria voou longe sobre o mar. 


E, 

fechando os olhos, 

orou no silêncio de sua alma.



Mas ao descer o monte, foi invadido pela tristeza, e pensou no seu coração: 

“Como poderei ir-me em paz e sem pena? 

Não, não será sem um ferimento na alma que deixarei esta cidade.

Longos foram os dias de amargura que passei dentro de suas muralhas, 

e longas as noites de solidão; 

e quem pode despedir-se sem tristeza de sua amargura e de sua solidão?



Muitos foram os pedaços de minha alma que espalhei nestas ruas, 

e muitos são os filhos de minha ansiedade que caminham, 

desnudos, entre estas colinas, 

e não posso abandoná-los 

sem me sentir oprimido e entristecido.


Não é uma simples vestimenta que dispo hoje, 

mas a própria pele que arranco com minhas mãos.

E não é um mero pensamento que deixo atrás de mim, 

mas um coração enternecido pela fome e a sede.


Contudo, não posso demorar-me por mais tempo.

O mar, 

que chama a si todas as coisas, 

está-me chamando, e devo embarcar.

Pois permanecer aqui, 

enquanto as horas se queimam na noite, 

seria congelar-me 

e cristalizar-me num molde.


De bom grado levaria comigo tudo o que aqui está. 

Mas como fazê-lo?

A voz não leva consigo a língua e os lábios que lhe deram asas.

É isolada que deve procurar o éter.

É também só, e sem o ninho, que a águia voa rumo ao sol.”



E quando atingiu o sopé da colina, 

virou-se novamente para o mar 

e viu seu navio aportar e, 

no convés, agruparem-se os marinheiros, 

os homens de sua terra natal.



E sua alma gritou e disse-lhes: 

“Filhos de minha velha mãe, que correis na crista das vagas impetuosas.

Quantas vezes navegastes nos meus sonhos. 

E agora chegais ao meu despertar, que é meu sonho mais profundo.

Disposto encontrais-me a partir, 

e minha impaciência, 

de velas desfraldadas, 

está à espera do vento.



Tomarei apenas mais um hausto de ar neste recanto sereno, 

volverei para trás somente mais um olhar afetuoso.

E, logo após, juntar-me-ei a vós, marujo entre marujos.

E tu, vasto mar, 

mãe sempre acordada,

Que, sozinho, 

és paz e liberdade para o rio e o regato,

Uma só volta fará ainda esta corrente, 

um só murmúrio sussurrará ainda nesta clareira,

“Depois, virei a ti, 

gota ilimitada a um oceano ilimitado.”


E enquanto caminhava, viu homens e mulheres 

abandonando suas hortas e vinhedos 

e apressarem-se rumo às portas da cidade.

E ouviu-os chamarem seu nome 

e anunciarem de campo a campo, uns aos outros, 

a chegada de seu navio.


E disse consigo mesmo:

“Será, acaso, o dia da separação o dia do encontro”? 

E será dito que meu anoitecer era, na verdade, minha aurora?

E o que oferecerei àquele que deixou seu arado no meio do rego 

e àquele que imobilizou a roda de seu lagar?


Converter-se-á meu coração numa árvore de abundantes frutos 

que colherei e lhes distribuirei?

E correrão meus desejos como um manancial 

onde lhes encherei os copos?


Sou, acaso, uma harpa 

para que em mim toque a mão do Onipotente, 

ou uma flauta para que Seu sopro me atravesse?

Um ser em procura de silêncios, eis o que sou, 

e que tesouros tenho descoberto nos meus silêncios 

que possa distribuir com segurança?


Se este é o dia de minha colheita, 

em que campos plantei a semente, 

e em que estações esquecidas?


Se esta é, na verdade, a hora de levantar minha lanterna, 

a chama que nela brilhará não será minha.

Vazia e apagada erguerei minha lâmpada.

E o guardião da noite a abastecerá de azeite 

e a acenderá também. ”



Essas coisas, 

ele as expressou em palavras. 

Mas muitas outras permaneceram inexpressas 

no seu coração. 

Pois nem ele podia externar seu segredo mais profundo.



Khalil Gibran



Kahlil Gibran's The Prophet





texto em: O Profeta de Khalil Gibran - http://espacoganem.blogspot.com.br/

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