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quinta-feira, 4 de agosto de 2016

sem título







Tenho em mim
O medo de engrandecer tanto
As coisas pequenas
Que as grandes sumam
de cena


Guardo uma tampa que acho na rua
Como um tesouro
E jogo fora meu ouro
Na próxima esquina


Porque se precisa ser guardado
Ou aguardado
Pouco importa
Importa que seja nada


Procuro os nadas
de Manoel de Barros.
E inutilmente esbarro
em vazios.


Guardo em mim
Palavras de mendigos
Relevos de calçadas
Postos abertos após as 10


E, com tudo isso,
Adoeço de ser eu
Desconfio sempre de onde estou

Mesmo confinado em casa


Me esvazio ao oco
Em filas de supermercado.
E lamento,
Contudo,
Que não sei lidar

Com nadas.


Marcos

fontes: 

texto/poesia em: http://praleraqui.blogspot.com.br/

imagem em: Search Google

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Não me afastar de você - Rubem Alves



Disseste tudo ao dizer:
Quando a ausência de mim 
Fizer presença em meu ser, 
Visitarei a mim mesmo, 
Para não me afastar de você.


Quando o peso do dever
Em mim soterrar a alma 
Entre os escombros da vida,
Quero flutuar qual pluma 
Na leve brisa da calma.


Quando o dizer tiver o poder 
De revelar o que não quero, 
Paro a pluma, guardo a voz, 
Me rebelo no silêncio 
Para me manter sincero.



Antes da noção do certo 
Se revelar um engano, 
Saio do cotidiano: 
Adentro em outras rotinas, 
Noutros mares vou pescar.


Não quero porto seguro,
Só âncora, vela e mar. 
Âncora para ser meu porto, 
Vela para me levar, 
Mar para, no litoral, 
As minhas ondas quebrar.


Rubem Alves



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